Exposição Desejos

 

No princípio deste ano, envolvi-me num projeto beneficente e fui a algumas galerias e casas de artistas amigos pedir doações para um leilão. Na Arte Aplicada, generosamente, Sabina de Libman, abriu-me à escolha diversas obras de seu acervo. Elegi três, uma delas a fotografia da fachada de uma casa de alta costura em Paris, com uma pequena silhueta feminina no primeiro plano. O encanto resultava sobretudo da utilização de um recurso simples (aumentar o tempo de exposição e girar a zoom enquanto o diafragma está aberto), criando-se assim um movimento de formas e luzes desfocadas e um certo clima de fantasia – se não mistério. Só depois fiquei sabendo que a autora era Fernanda Naman, cujas jovens pinturas eu vira há alguns anos.

 

Várias das fotos desta exposição são irmãs da que mencionei. Apenas ampliam, um pouco, a manipulação da realidade – já que as silhuetas são produzidas em separado do fundo e introduzidas, depois, com o Photoshop. O mesmo programa é usado para outros efeitos, em outros trabalhos, e visto que a arte é essencialmente artifício, ficção, mentira, não vai nisso nenhum problema – é claro. Ao longo da história da arte, novas técnicas vão-lhe naturalmente enriquecendo os domínios, e todas valem, quando bem empregadas. O diabo é quando o artista perde a mão e o limite, abusa dos efeitos, e/ou adere a um novo academismo. Na fotografia atual, o desfoque pelo desfoque, por exemplo, virou uma simples receita da moda.

 

Felizmente Fernanda escapa a ela e a fórmulas empobrecedoras. Está em busca de suas próprias descobertas, sensivelmente, sem complicar nem rebuscar. Se gosto mais de umas que de outras (isto é subjetivo), no todo só me cabe elogiar-lhe esta primeira individual de fotografia. Contente com o talento e a competência da jovem artista, auguro-lhe um bom trabalho e um merecido sucesso.

 

Olívio Tavares de Araújo

 

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